Sobre as fontes
A trajetória vem de um relato em primeira pessoa de identidade preservada, colhido por Ana Maria Cemin logo após a saída do presídio e publicado no Bureaucom em agosto de 2025 como republicação da entrevista de abril de 2023; os atos de abordagem, detenção, cárcere e saída com tornozeleira são conhecidos apenas por esse testemunho, sem decisão judicial, autos ou entrevista complementar examinados no acervo.
Dois meses no Colmeia e a tornozeleira que a prendeu em casa1
A entrevistada de identidade preservada tinha 55 anos em abril de 2023, quando procurou Ana Maria Cemin logo após sair do presídio de Brasília. Viúva, mãe e provedora da casa, ela trabalhava como motorista de aplicativo e fazia chinelinhos artesanais que vendia nas corridas de Uber e 99. A história que contou é apresentada como a de mais uma vítima de 8 de janeiro, transformada da noite para o dia em presa política.1
Ela saiu de seu estado em 6 de janeiro e chegou às 4h da madrugada de 8 de janeiro ao QG em Brasília, com a informação de que a manifestação na Praça dos Três Poderes ocorreria somente no dia seguinte. Pretendia ficar três dias e voltar na quinta-feira para casa. Na tarde do domingo, seguiu o fluxo da passeata em direção à Esplanada e ficou na parte superior de um dos prédios, junto ao pessoal de seu estado, até ouvir explosões de bombas, se perder dos conhecidos na fumaça e decidir subir de volta em direção ao QG, decepcionada e com sensação de perigo.1
No QG, ela conta que tentou sair com seus conhecidos para a rodoviária ainda no domingo, mas foi impedida depois de duas tentativas e desistiu. Na manhã de segunda-feira, por volta das 6 horas, descreve tumulto, operação com muitos policiais armados e negociações entre Exército e autoridades. Os ônibus chegaram ainda de madrugada com ordem para todos embarcarem, sob promessa de triagem e liberação na rodoviária. Rodaram por horas por Brasília, ficaram horas trancados dentro dos ônibus em local sem banheiros, com mulheres menstruadas, desmaios e vômitos, até chegarem ao ginásio da Polícia Federal depois das 14 horas do dia 9, onde passaram por revista e só comeram às 16h30.1
Ela relata que ainda acreditava na triagem quando, por volta das 4 horas da madrugada, o delegado lhe disse que estava detida. Ao questionar o motivo, ouviu como resposta, segundo seu relato, que era ordem do ministro Alexandre de Moraes e que, se não a prendesse, quem seria preso seria ele. Ela diz que entrou em pânico, que tem depressão e desandou naquele momento, e que o delegado tentou acalmá-la e foi gentil. Conta que contratou advogado com o grupo, que estava fraca por falta de comida e que voltou a comer somente às 16 horas do dia seguinte.1
Do ginásio para a delegacia e depois para o presídio, ela descreve o transporte numa van fechada, escura e sem ar, onde uma companheira desmaiou e as mulheres gritaram até o policial abrir a porta e todas caírem para fora, ouvindo de outra policial, em tom que definiu como cínico, que eram dengosas. No Colmeia, onde diz ter ficado dois meses, relata marmitas com larvas, moscas, fios de cabelo, cacos, orelha de porco com pelos e legumes com terra, garimpando o que comer durante a semana e esperando o sábado, quando a comida tinha mais sabor, além de cantina no pátio com paçoca e minipizzas, com dinheiro liberado só depois de um mês. Conta o primeiro mês sem conseguir falar com advogados, depois atendimentos de 15 minutos para três presas por vez, revistas antes do parlatório para impedir bilhetes e um bilhete que conseguiu levar no cabelo para os filhos.1
Ela também relata sol no pátio sentadas no chão quente de mãos na cabeça, com idosas sem conseguir se abaixar e consequentes hemorroidas; um confere em que uma policial com arma grande ameaçava meter uma doze nas cabeças de quem não se alinhasse, aterrorizando e fazendo chorar até passar mal, quando as mais fortes amparavam as desesperadas; e uma visita que descreve como dos ministros Alexandre de Moraes e Rosa Weber com 20 policiais armados e spray de pimenta, com mulheres sentadas no chão falando de filhos, netos e casas, e respostas atribuídas a Moraes de que seria averiguado o caso de quem não fez nada, que quem fez pagaria muito e que a tornozeleira duraria quanto tempo ele quisesse. Preserva ainda o banho de sol, a água e as poucas colheres que separava para se manter viva, a fé, as orações das pastoras e seu papel de ajudar quem estava pior.1
Ela diz que saiu do presídio no dia 10 de março, depois de dois meses no cárcere, chorando pelo corredor, ao pegar as roupas, ao colocar a tornozeleira e nos dois dias seguintes, por deixar para trás mulheres que, segundo ela, entraram nos prédios por convite, para se abrigar das bombas ou socorrer alguém. Já em casa, conta que não se anima a sair por receio de problemas com o aparelho e de se complicar em viagens mais longas, ficando quieta, e que sair na rua virou humilhação: no posto de saúde percebeu olhares maldosos, saiu chorando e passou a usar calça longa. Diz que chorou muito, mas estava mais serena, embora travasse a garganta à noite ao lembrar que as companheiras dormiam com fome entre o pão amassado e o achocolatado, enquanto ela tomava remédio de pressão e pedia a Deus algo comível para salvar duas ou três colheradas.1
Situação documentada
Saída do Colmeia em 10 de março de 2023 com tornozeleira eletrônica; em abril de 2023 relatava ficar em casa por receio de trabalhar em corridas longas e humilhação em público.1
A trajetória no tempo
08/01/2023
Chegada ao QG de Brasília de madrugada para manifestação prevista para o dia seguinte.1
09/01/2023
Retirada do QG, transferência ao ginásio da Polícia Federal, voz de detenção de madrugada e transporte ao presídio em van sem ventilação.1
10/03/2023
Saída do presídio após dois meses no cárcere, com colocação de tornozeleira eletrônica.1
04/2023
Entrevista a Ana Maria Cemin relatando cárcere, saída com tornozeleira, receio de trabalhar e humilhação em público.1
Dados da história
- Formação
- Motorista de aplicativo e produção artesanal1
- Idade à época
- 55 anos · 04/20231
- Local de custódia
- Brasília · DF110/03/2023
Processo e pena
Número do processo não localizado no acervo.
Pena não informada no acervo.
Medidas na trajetória
- Prisão preventiva
Detenção seguida de cerca de dois meses no presídio Colmeia, até 10/03/2023, segundo relato.1
Até 10/03/2023 · Medida histórica · 04/2023 - Tornozeleira eletrônica
Saída com tornozeleira eletrônica em 10/03/2023, em uso na entrevista de abril de 2023.1
Desde 10/03/2023 · Informada na data · 04/2023
Efeitos relatados
- Trabalho
Com tornozeleira, não se animava a sair de casa e evitava corridas longas por receio com o aparelho, ficando quieta em casa.1
04/2023 - Convivência
Julgamento em público por causa da tornozeleira; choro e humilhação em ida ao posto de saúde e uso de calça longa para sair.1
04/2023 - Saúde
Pânico ao receber voz de detenção, com depressão prévia relatada, e uso de remédio de pressão no cárcere.1
04/2023 - Agressão relatada
Transporte em van trancada sem ar com desmaio de companheira e ameaça com arma durante conferência na cela, segundo relato.1
04/2023
Pedidos e respostas
- Pedidos efetivamente apresentados não localizados no acervo.
Documentos e informações ainda não localizados
- Estado de origem e município de residência não localizados no acervo; só consta saída de seu estado.
- Número do processo, tipificação e pena não localizados no acervo.
- Fundamento e autoridade formal da prisão e da tornozeleira não comprovados por decisão judicial no acervo; só relato da detida.
- Data de término da tornozeleira e de outras cautelares não localizada no acervo.
- Situação posterior a abril de 2023 não localizada; republicação em agosto de 2025 não atualiza o destino.
Fontes
[Bureaucom] UMA VOZ QUE O CÁRCERE NÃO CALOU
Ana Maria Cemin · Bureaucom · 28/08/2025
Abrir fonte original ↗Documento preservado parcialmente.
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