Sobre as fontes
A trajetória vem de uma única entrevista publicada pela jornalista Ana Maria Cemin, com relato direto e extenso da entrevistada de identidade preservada sobre prisão e cautelares, sem entrevista adicional ou decisão judicial examinada no acervo; a nota de 19 de agosto de 2025 acrescenta que ela depois aceitou acordo, sem datar o desfecho.
Dez dias no Colmeia e uma vida presa em casa1
A entrevistada tinha 59 anos quando procurou a jornalista para contar sua experiência no presídio Colmeia, em Brasília, sob a condição de não ter a identidade revelada. Apresentou-se como artista plástica de formação, com especialização em Mediação Social, e disse ter trabalhado por 30 anos com dependentes químicos e menores infratores usando a arte como ferramenta de inclusão. Contou que falava com a jornalista desde aquela primeira conversa e que as dores após o registro foram severas.1
Ela narrou ter sido presa na noite de 8 de janeiro, por volta das 22 horas, depois de ir à Praça dos Três Poderes sem entrar em prédios, e liberada na madrugada após depoimento a uma delegada, sem lavratura de boletim, apenas com termo circunstanciado. Disse que a orientação era ir direto para a rodoviária e sair de Brasília, mas voltou com outros ao acampamento para recolher pertences. Por volta de 1h30 do dia 9 foram de Uber ao local e, às 4h30, descobriram as saídas bloqueadas, com policiamento ostensivo.1
Na manhã de 9 de janeiro, descreveu a condução do acampamento em frente ao Quartel para ônibus, sob promessa de ida à rodoviária, seguida de quase três horas rodando por Brasília e chegada ao Ginásio da Polícia Federal, com nova revista e cães farejadores. Disse que os policiais federais fizeram vaquinha para comprar o café da manhã de cerca de duas mil pessoas, com pão de leite, manteiga e sucos. Na triagem com delegados, afirmou que não houve consenso sobre sua liberação: um delegado chamado Lisboa teria se mostrado humano, enquanto outro exigiu laudo sobre a deficiência do filho e determinou sua ida ao Colmeia.1
No Colmeia, disse ter ficado ao todo dez dias, dividindo cela minúscula com outras 12 mulheres. Relatou comida com cheiro de azeda, frutas pequenas ou passadas, água salobra da pia e sobrevivência à base de pão, bebidas e frutas aproveitadas. Contou ter ficado cinco dias com a mesma roupa, sem escovar os dentes, tomando banho frio e se secando com absorventes, até receber peças de roupa de uma colega no quinto dia e conseguir escova com outra presa. Disse também ter ficado sem medicações por ausência de receitas, citando hipotireoidismo, hipertensão, síndrome do intestino irritável com suspeita de Crohn, rinite alérgica e síndrome do pânico, com a medicação retida.1
Relatou rotina humilhante de saída da cela de cabeça baixa, mãos para trás e saída de costas, além de 15 minutos alinhada sob sol do meio-dia sem se mexer. Disse que reagiu a uma carcereira somente na terceira agressão, após empurrões que a fizeram bater a cabeça na parede: empurrou a mão da agente, girou seu pulso e a imobilizou contra o perfilado de concreto, e depois ergueu as mãos dizendo que apenas se defenderia. Afirmou que a agente nunca mais entrou no corredor enquanto esteve presa. Contou ainda ter pedido a lavagem do pátio contaminado por fezes de pombos, atendida com água retirada com rodo pelas próprias presas.1
Fora do presídio, disse ter sido acolhida por uma voluntária em Brasília que conheceu no ginásio: ajudou a contratar advogado, acompanhou audiência de custódia e colocação da tornozeleira, ofereceu casa, comida e levou-a à rodoviária. Na entrevista de 19 de fevereiro de 2023, estava em casa de tornozeleira que apitava e assustava o filho, proibida de ir além do município e obrigada a comparecer às segundas-feiras à Vara de Execuções Criminais, sem data para terminar. Disse ter iniciado terapia familiar e descreveu o filho de 26 anos, com síndrome de Down, dependente e ansioso, que chorava, queria tirar a tornozeleira e temia que ela não voltasse do supermercado.1
Naquele momento aguardava decisão sobre retirada da tornozeleira e liberação para voltar a consultorias em cidades vizinhas, com requerimento da advogada pedindo suspensão das cautelares da liberdade provisória. Disse estar impedida de exercer a profissão, com ganho apenas para medicamentos, sem plano de saúde, precisando entregar o apartamento e ir com o filho para a casa do pai. A nota da redatora de 19 de agosto de 2025 informa que a vida posterior foi de sofrimento até aceitar o Acordo de Não Persecução Penal, sem datar o acordo nem detalhar suas condições.1
Situação documentada
Nota editorial de 19/08/2025 relata adesão ao ANPP em data não informada; não comprova homologação, cumprimento integral ou extinção, nem atualiza as cautelares narradas em 2023.1
- Situação processual
- Adesão ao ANPP relatada
Nota editorial de 19/08/2025 relata adesão ao ANPP em data não informada; não comprova homologação, cumprimento integral ou extinção, nem atualiza as cautelares narradas em 2023.1
Informação publicada em 19/08/2025
A trajetória no tempo
08/01/2023
Prisão na Praça dos Três Poderes por volta das 22h e liberação na madrugada após depoimento.1
09/01/2023
Nova abordagem no acampamento, condução em ônibus e chegada ao Ginásio da Polícia Federal; triagem determina ida ao Colmeia.1
19/02/2023
Entrevista em casa de tornozeleira, com proibição de sair do município e comparecimento semanal à Vara; relata dez dias no Colmeia, terapia familiar e dificuldades de trabalho e renda.1
19/08/2025
Publicação com nota de que aceitou posteriormente Acordo de Não Persecução Penal, sem data do acordo.1
Dados da história
- Formação
- Artista plástica e terapeuta, segundo relato1
- Idade à época
- 59 anos · 19/02/20231
- Local de custódia
- Brasília · DF119/02/2023
Processo e pena
Número do processo não localizado no acervo.
Pena não informada no acervo.
Medidas na trajetória
- Tornozeleira eletrônica
Tornozeleira eletrônica em uso na entrevista, com apitos que assustavam o filho.1
Informada na data · 19/02/2023 - Deslocamentos restritos
Proibida de ir além dos limites do município, impedida de cumprir agenda fora da cidade.1
Informada na data · 19/02/2023 - Prisão preventiva
Dez dias de prisão no presídio Colmeia após triagem no Ginásio da PF.1
Medida histórica · 19/02/2023
Efeitos relatados
- Saúde
Ficou sem medicações no Colmeia por ausência de receitas, com medicação retida.1
19/02/2023 - Trabalho
Impedida de exercer a profissão e de fazer consultorias em cidades vizinhas, dependendo de ajuda.1
19/02/2023 - Convivência
Iniciou terapia familiar após o Colmeia; filho ficava desesperado com apitos da tornozeleira e temia que ela não voltasse.1
19/02/2023 - Patrimônio
Sem manter aluguel, precisou entregar o apartamento e ir com o filho para a casa do pai; deixou de pagar plano de saúde.1
19/02/2023 - Agressão relatada
Relata agressões de carcereira e confronto físico em que revidou na terceira vez.1
19/02/2023
Pedidos e respostas
Suspensão das medidas cautelares da liberdade provisória, incluindo retirada da tornozeleira e liberação para trabalhar1
Justiça · Pedido em 19/02/2023Resposta não localizada no acervo.
Documentos e informações ainda não localizados
- Município de residência não localizado no acervo.
- Número do processo, vara e pena não localizados no acervo.
- Resultado do requerimento de suspensão das cautelares não localizado no acervo.
- Data e condições do Acordo de Não Persecução Penal não localizadas; apenas aceite posterior informado em nota de 2025.
- Datas de entrada e saída dos dez dias no Colmeia não localizadas no acervo.
Fontes
[Bureaucom] CRIMINALIZADA POR SER DE DIREITA
Ana Maria Cemin · Bureaucom · 19/08/2025
Abrir fonte original ↗Documento preservado parcialmente.
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