MEMÓRIA · VERDADE · JUSTIÇA
perseguidos.Assine pelo fim do inquérito

UMA HISTÓRIA DO ACERVO

Relatora de identidade preservada

Levada de ônibus ao ginásio da Polícia Federal, passou noites ao relento com fome, pânico e dores, perdeu o movimento das pernas após o interrogatório e foi liberada sem dinheiro, até ser acolhida por voluntários.1

Situação conhecida em 26/08/2025 · 1 documentos

Corrigir, complementar ou solicitar retirada

Você pode solicitar alterações nas informações ou a retirada deste perfil.

Sobre as fontes

A história vem de um único texto publicado por Ana Maria Cemin em 26/08/2025, que republica o testemunho direto de uma mulher de identidade preservada, recebido em 27/02/2023; os atos de custódia e a liberação aparecem apenas pela voz da narradora, sem decisão judicial, número de processo ou entrevista complementar examinados.

Noites ao relento, corpo em choque e liberação sem volta1

A Relatora de identidade preservada apresenta-se como mãe de dois filhos adultos, avó e trabalhadora que se descreve como terapeuta holística, profissional da saúde, reikiana e benzedeira, de hábitos simples e adepta da meditação há mais de 30 anos. Ela conta que decidiu ir a Brasília tomada por sentimento de patriotismo e pelo desejo de lutar por um Brasil melhor, após ver o filho seguir a vida em terras distantes.1

Esse relato é sobre o dia 08/01/2023, quando os acampados no QG do Exército em Brasília se uniram em marcha de 8 km até a Praça dos Três Poderes com a intenção de fazer um círculo de mãos dadas em volta dos prédios e pedir o código-fonte para esclarecer possível fraude nas eleições de 2022. Ela descreve a marcha como pacífica, com idosos, jovens, crianças, bebês, cadeirantes e pessoas com deficiência, em meio a orações e louvores.1

Ao chegar perto dos prédios, ela diz ter visto degradação no interior e infiltrados de verde-amarelo que incitavam violência, que patriotas teriam tentado dissuadir. Ela narra que, enquanto filmava com o celular, um rapaz pediu um isqueiro para queimar panos enrolados, que ninguém deu, mas que depois viram em vídeos que ele ateou fogo numa lateral de um prédio. Em seguida descreve cenas de confronto, com bombas de fumaça, pessoas jogadas ao chão, uma senhora que tropeçou em carrinho de bebê, um amputado que não conseguia correr, um jovem atingido na cabeça e um senhor atingido na panturrilha ao chutar uma bomba.1

Depois de caminhar por 8 km com dores habituais na lombar, joelhos e quadril, fatigada pelo sol escaldante, ela voltou a pé por mais 8 km até o QG, sendo ajudada por outros machucados. No QG, militares teriam orientado a desocupar a Praça dos Cristais, dizendo que poderiam ficar até as 7h do dia 9 de janeiro e que não poderiam mais protegê-los depois daquele horário. Ela passou a noite em alerta, com barraca desmontada e mochila pronta, ajudando o pessoal do ônibus a arrumar as coisas.1

Então começou o que ela chama de segundo pesadelo: foram obrigados a entrar em ônibus que não eram os seus, com policiais federais fortemente armados conduzindo para o interior, sem que ninguém explicasse para onde seriam levados. Muitas pessoas, diz ela, acordaram de surpresa e não puderam levar pertences, alimentos, remédios de uso contínuo e produtos de higiene. No ônibus, patriotas entraram em choque e pânico, rodaram pela cidade escoltados por viaturas, motos, helicópteros, até um local da Polícia e depois até o Ginásio da Academia da Polícia Federal, onde passaram por revista corporal e de bagagens.1

Ela e o grupo do ônibus ficaram do lado de fora, ao relento, e entre louvores e orações atravessaram a primeira noite até amanhecer, em horas de fome, sede, choro e frio à noite. Conta que enfermeiros ficavam distantes e que era preciso fazer corrente de vozes gritando que havia gente passando mal. Diz que teve vários ataques de pânico e de choro compulsivo, até que numa manhã começaram a dar garrafinhas de água e um pãozinho, depois suco e fruta, e no decorrer da semana comida em embalagem de isopor. Relata poucos banheiros para milhares de pessoas, dias sem banho, sem sabonete ou desodorante, dormindo quase uns sobre os outros, e energia cortada que impedia carregar o celular para falar com familiares.1

Foi só com a chegada de advogados que, segundo ela, caiu a ficha de que estavam presos e precisariam constituir defesa para a audiência de custódia, com cobranças entre R$ 1.000,00 e R$ 50.000,00, em meio a novo pânico por serem trabalhadores em férias, aposentados e estudantes sem dinheiro. Ela conta que assinou procuração e que o advogado José Carlos, de Brasília, os levou ao interrogatório da Polícia Federal. Constrangida por estar despenteada e dias sem banho, entrou pela primeira vez como ré, passou por revista em que a policial, de olhos marejados, pousou as mãos em seus ombros, gesto que diz tê-la acalentado.1

Respondidas as perguntas e tirada a foto, esperou no corredor externo sem alimentação, com apenas uma garrafa de água, entre 49 pessoas do mesmo ônibus, ao lado das comissões de Direitos Humanos e da OAB. Ao ouvir de um membro da OAB em voz alta que o Xandão nunca admitiria aqueles óbitos, diz ter ficado atônita e perdido o controle das pernas e do quadril, chegando ao auge da contratura muscular. Ela também afirma ter visto dois jovens sofrerem ataque cardíaco e um jovem caído com pulsos cortados, e escreve que presenciaram muitos óbitos, pontos que o acervo preserva apenas como relato dela, sem individualização verificável.1

Ao final da tarde, dois patriotas do ônibus foram liberados e depois o advogado disse que seriam levados de ônibus da PF para uma rodoviária interestadual, de onde deveriam seguir para seus estados: estavam livres. Descarregados na rodoviária sob olhar de helicópteros, carros oficiais e mídia, foram largados à própria sorte, abandonados e sem dinheiro nem para um café, sem conseguir passagem nos guichês. Duas pessoas então os levaram a um abrigo de um padre em cidade satélite, onde receberam comida quente, café, banho quente e roupas limpas, voltando a se sentir gente pela primeira vez desde 09/01/2023.1

No abrigo dormiu em colchonete com travesseiro e carregou o telefone por completo, mas sem saber por quanto tempo ficou ali. Uma moça que fazia doações a reconheceu de um vídeo, tirou-a de lá e a levou para sua casa a cerca de 40 km, acolhendo-a sem saber seu nome ou de onde vinha até que reorganizasse os pensamentos e recuperasse estabilidade emocional para voltar ao estado e à cidade, onde todos estavam preocupados sem saber se estava viva ou morta. Encerra dizendo que hoje segue a vida, vivendo um dia de cada vez, entre o lado bom e humano das pessoas e a cegueira de outras.1

Situação documentada

Testemunho republicado em 26/08/2025, recebido em 27/02/2023; narradora conta que foi liberada após interrogatório e deixada em rodoviária, acolhida depois em abrigo e em casa de voluntária, e diz que hoje segue a vida. Sem prisão nova em 2025 e sem dia exato de saída informado.1

A trajetória no tempo

08/01/2023

Marcha de 8 km do QG do Exército até a Praça dos Três Poderes relatada pela narradora.1

09/01/2023

Saída do QG e condução em ônibus até a Academia da Polícia Federal, com primeira noite ao relento.1

27/02/2023

Data em que Cemin diz ter recebido o relato da testemunha.1

26/08/2025

Republicação do testemunho por Ana Maria Cemin.1

Dados da história

Formação
terapeuta holística, profissional da saúde, reikiana, benzedeira1
Idade à época
Não informada
Local de custódia
Brasília · DF101/2023
Processo e pena

Número do processo não localizado no acervo.

Pena não informada no acervo.

Medidas na trajetória
  • Medidas não informadas no acervo.
Efeitos relatados
  • Saúde

    Dores habituais na lombar, joelhos e quadril agravadas pela caminhada; ataques de pânico e choro compulsivo na custódia.1

    01/2023
  • Saúde

    Perda do controle das pernas e do quadril após interrogatório.1

    01/2023
  • Convivência

    Espera ao relento com fome, sede e frio; após liberação, deixada em rodoviária sem dinheiro para passagem, depois acolhida em abrigo e casa de voluntária.1

    01/2023
Pedidos e respostas
  • Pedidos efetivamente apresentados não localizados no acervo.
Documentos e informações ainda não localizados
  • Idade não localizada no acervo.
  • Município e UF de residência e origem não localizados no acervo.
  • Número de processo, tipificação e pena não localizados no acervo.
  • Pedidos formais e respostas de autoridades não localizados no acervo.
  • Situação atual posterior a 2025-08-26 não localizada no acervo; não presumir.

Fontes

  1. 9987-ninguem-me-contou-eu-vivi.md

    Ana Maria Cemin · 26/08/2025

    Documento preservado parcialmente.

    ↩ Voltar 1 ↩ Voltar 2 ↩ Voltar 3 ↩ Voltar 4 ↩ Voltar 5 ↩ Voltar 6 ↩ Voltar 7 ↩ Voltar 8 ↩ Voltar 9 ↩ Voltar 10 ↩ Voltar 11 ↩ Voltar 12 ↩ Voltar 13 ↩ Voltar 14 ↩ Voltar 15 ↩ Voltar 16 ↩ Voltar 17 ↩ Voltar 18 ↩ Voltar 19 ↩ Voltar 20 ↩ Voltar 21 ↩ Voltar 22

Corrigir, complementar ou solicitar retirada

Você pode solicitar alterações nas informações ou a retirada deste perfil.

← Voltar ao catálogo