Sobre as fontes
A trajetória é contada em duas reportagens de Ana Maria Cemin no Bureaucom, com entrevista direta com Fabrícia em janeiro de 2024 e atualização em janeiro de 2025; os atos processuais e a demissão por justa causa aparecem apenas pelo relato dela e da repórter, sem autos trabalhistas, decisão judicial ou exame médico direto no acervo.
Demitida presa, vende ovos de tornozeleira1
Fabrícia Lúcia da Silva Rodrigues, operadora de máquinas de Sorocaba (SP), viajou a Brasília em 6 de janeiro de 2023 com a expectativa de voltar na segunda-feira seguinte. Ela contou que não avisou o marido por saber que ele seria contra e deixou uma colega encarregada de justificar a ausência na empresa. O convite havia circulado em um grupo de pessoas que conhecera no QG de Sorocaba, com data de ida e volta.2
No dia 8 de janeiro, ela desceu do QG para a Praça dos Três Poderes um pouco depois das 15h. Disse que não acompanhou a marcha e foi de Uber por ter problemas nos pés e não aguentar uma caminhada longa. Após revista, entrou no gramado e decidiu logo voltar ao QG porque havia muito barulho e bagunça, o que não era o que esperava de uma manifestação. Para voltar, pegou carona. Ela resumiu o saldo daquele convite como perdas: prisão, processo e demissão.2
Na noite de 8 para 9 de janeiro, estava entre as pessoas acampadas no QG de Brasília. No dia 9, foi levada com cerca de 2 mil pessoas em ônibus para o Ginásio da Polícia Federal, para triagem. Conversou com um advogado que, segundo ela, garantiu que seria solta por ter filha pequena e comorbidades. Na madrugada do dia 10, na fila de triagem, o delegado informou que estava detida e pediu que assinasse um papel.2
Ao receber a informação, entrou em pânico, gritou que não tinha feito nada de errado e passou mal, com os pés inchados. Foi levada à enfermaria, onde ficou cerca de duas horas em atendimento, e depois reconduzida à sala de triagem. Ela descreveu o estado como crítico, dizendo que gritava que preferia morrer a ser presa. Depois, já em salão amplo separado entre mulheres e homens, voltou a entrar em pânico na chegada do camburão para transporte aos presídios, com formigamento nas pernas, dificuldade para respirar e alteração de cor e da língua, sendo deitada em cadeiras.2
Naquele momento de desespero, uma mulher com quem havia conversado rapidamente aproximou-se e ficou com ela, pedindo que orassem juntas o Salmo 121 para conter a turbulência. Fabrícia disse que foi se concentrando nas palavras do salmo. O apoio pontual, em meio a choro e lamento que descreveu como constantes, marcou o início dos cerca de dois meses que passaria presa.2
Do ginásio, foi presa no Presídio Colmeia, onde ficou até 12 de março de 2023. Ela relatou que, dentro do presídio, não conseguia colocar os braços para trás, postura que disse ser exigida dos detentos, por causa de cirurgia anterior no braço, e que ouvia gritos das carcereiras. A deficiência no braço vinha de lesões de trabalho, com lesão por esforços repetitivos adquirida como operadora de máquina impressora e, em 2022, ruptura de tendão no ombro com colocação de presilha e fisioterapia. Disse ainda que deixou de tomar medicações para tireoide porque não eram fornecidas.12
Em 12 de março, foi solta após passar pelo Centro Integrado de Monitoramento Eletrônico, onde colocaram tornozeleira e repassaram orientações e proibições para não voltar ao cárcere. Contou que ficou com liberdade restrita para sair apenas em dias de semana até as 19 horas e comparecimento às segundas-feiras ao Fórum para assinar. Com quatro dias restantes, preferia ficar dentro de casa. Em janeiro de 2024, a repórter a encontrou como presa domiciliar, vivendo dentro de casa e com vergonha de ir ao postinho de saúde por usar a tornozeleira.2
Ainda dentro do presídio, antes de contato com advogado ou familiar, recebeu carta de demissão por justa causa da multinacional onde trabalhava desde 2011. Fabrícia sustenta que a alegação ligada a publicação de foto em rede social não procede, porque a foto seria anterior ao afastamento para a cirurgia no braço, e afirma que tudo estaria comprovado nos autos por seu advogado. Os autos não foram examinados no acervo, de modo que não há conclusão sobre a legalidade da demissão.12
O histórico na empresa era anterior e distinto: demitida em 2015 após adquirir a lesão por esforços repetitivos, lutou cinco anos na Justiça, passando por três instâncias, até ser reintegrada, depois atuando na montagem de notebooks. Com a prisão em Brasília, veio a nova demissão por justa causa, com perda do emprego, do plano de saúde e odontológico pagos via sindicato e dos direitos trabalhistas. A reportagem registrou a perda do novo processo em duas instâncias, o que tirou suas esperanças.1
Depois da prisão, fez seis meses de tratamento com psicólogo porque não conseguia entrar em ônibus. O marido tomou a iniciativa de contratar advogado por 10 mil reais para a defesa, pago de forma parcelada por terem poucos recursos. Em janeiro de 2025, vivia da venda de ovos, ainda com tornozeleira e aguardando na fila o julgamento no Supremo Tribunal Federal.1
Situação documentada
Vivia da venda de ovos, ainda com tornozeleira e aguardando julgamento no STF, após perder o processo trabalhista em duas instâncias.1
A trajetória no tempo
06/01/2023
Viajou a Brasília com previsão de retorno na segunda-feira, sem avisar o marido.2
08/01/2023
Desceu do QG à Praça dos Três Poderes após as 15h e retornou ao QG.2
09/01/2023
Levada do QG de Brasília ao Ginásio da Polícia Federal com cerca de 2 mil pessoas.2
10/01/2023
Informada da detenção na triagem de madrugada; atendida cerca de duas horas na enfermaria após passar mal.2
12/03/2023
Saída do Presídio Colmeia com colocação de tornozeleira no CIME e restrições de saída e assinatura semanal no Fórum.12
21/01/2024
Entrevista como presa domiciliar com tornozeleira, relatando vida dentro de casa e acompanhamento posterior com psicólogo.2
29/01/2025
Relatada vivendo da venda de ovos, ainda com tornozeleira, aguardando julgamento no STF, após perda do processo trabalhista em duas instâncias.1
Dados da história
- Formação
- Operadora de máquina1
- Idade à época
- 39 anos · 29/01/20251
- Residência informada
- Sorocaba · SP221/01/2024
Processo e pena
Número do processo não localizado no acervo.
Pena não informada no acervo.
Medidas na trajetória
- Prisão domiciliar
Relatada como presa domiciliar com tornozeleira eletrônica.2
Informada na data · 21/01/2024 - Tornozeleira eletrônica
Tornozeleira colocada na saída do Colmeia em 12 de março de 2023, ainda em uso em janeiro de 2025.21
Desde 12/03/2023 · Informada na data · 29/01/2025 - Deslocamentos restritos
Saída restrita a dias de semana até as 19 horas, com assinatura no Fórum às segundas-feiras.2
Informada na data · 21/01/2024
Efeitos relatados
- Saúde
Crises de pânico na triagem e no transporte, com mal-estar, inchaço nos pés e atendimento de cerca de duas horas na enfermaria.2
21/01/2024 - Saúde
Interrupção de medicação para tireoide no presídio, segundo relato, por falta de fornecimento.2
21/01/2024 - Saúde
Seis meses de tratamento com psicólogo após a prisão por não conseguir entrar em ônibus.2
21/01/2024 - Trabalho
Demissão por justa causa do emprego mantido desde 2011 e sustento posterior com venda de ovos.1
29/01/2025 - Patrimônio
Perda relatada do emprego, dos planos de saúde e odontológico e dos direitos trabalhistas.1
29/01/2025 - Convivência
Vida restrita dentro de casa e vergonha de ir ao posto de saúde por usar tornozeleira.2
21/01/2024 - Prática religiosa
Oração do Salmo 121 com outra presa para conter desespero durante a detenção.2
21/01/2024
Pedidos e respostas
- Pedidos efetivamente apresentados não localizados no acervo.
Documentos e informações ainda não localizados
- Número do processo criminal e pena não localizados no acervo.
- Tempo de pena, multa e trânsito em julgado não localizados no acervo.
- Pedidos formais e respostas de autoridades não sustentados no acervo.
- Datas de início e fim das restrições atuais e situação posterior a janeiro de 2025 não localizadas.
- Autos trabalhistas, decisão judicial e registros médicos não examinados no acervo.
Fontes
[Bureaucom] DEMITIDA POR JUSTA CAUSA PELO 8 DE JANEIRO
Ana Maria Cemin · Bureaucom · 29/01/2025
Abrir fonte original ↗Documento preservado parcialmente.
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[Bureaucom] “EU FUI ESCONDIDA A BRASÍLIA E SURTEI AO SER PRESA”
Ana Maria Cemin · Bureaucom · 21/01/2024
Abrir fonte original ↗Documento preservado parcialmente.
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