MEMÓRIA · VERDADE · JUSTIÇA
perseguidos.Assine pelo fim do inquérito

UMA HISTÓRIA DO ACERVO

Christina Medeiros

Advogada paraibana, Christina passou 117 dias presa após o QG de Brasília, com fome e cela molhada no Colmeia. Em casa desde maio de 2023 com tornozeleira, segue com horários e deslocamentos limitados que dificultam o trabalho.12

Situação conhecida em 22/01/2024 · 3 documentos

Corrigir, complementar ou solicitar retirada

Você pode solicitar alterações nas informações ou a retirada deste perfil.

Sobre as fontes

A vida no cárcere vem de um depoimento em primeira pessoa de Christina Medeiros, publicado em 11/11/2023 e editado pela jornalista Ana Maria Cemin, e de duas reportagens posteriores da mesma autora que retomam os 117 dias de prisão e a monitoração. Os atos processuais não foram examinados nos autos; há apenas menção a representação disciplinar na OAB em julho de 2024. Não há entrevista direta além do texto enviado por ela nem documento clínico ou decisão judicial examinados.

117 dias presa longe das filhas e netos1

Christina Medeiros apresentou-se como advogada paraibana, com 55 anos e 29 anos de advocacia, que passou meses manifestando-se em frente ao quartel em João Pessoa após as eleições de 2022. Em 6 de janeiro saiu de João Pessoa às 14 horas e chegou a Brasília por volta das 15h30 de 8 de janeiro, quando viu pessoas descendo do QG em direção à Praça dos Três Poderes e decidiu ficar na Praça dos Cristais com os demais paraibanos.1

Na noite de 8 de janeiro, com bombas de efeito moral, helicópteros e tanques nas ruas do QG, ela descreveu medo e desorientação. Disse ter perguntado a um soldado do Exército o que acontecia e ouvido que era para permanecer dentro do QG por segurança. Com uma pastora de João Pessoa, voltou para as barracas, orou com o grupo da Paraíba e aguardou.1

Na manhã de 9 de janeiro o acampamento foi cercado e os cerca de 2 mil ocupantes receberam ordem de sair em uma hora, mas a única saída oferecida, segundo seu relato, foram mais de 40 ônibus contratados pelo governo, sob promessa de averiguação e liberação. Ela contou que a última refeição havia sido às 11 horas do dia 8, na estrada, e que a madrugada foi de fome e medo.1

Depois de mais de duas horas circulando por Brasília, os ônibus chegaram ao Ginásio da Polícia Federal entre 12 e 13h de 9 de janeiro. Ela relatou ter ficado sem informação, sem alimentação e sem como carregar o celular ou falar com a família, tendo comido apenas um pequeno panetone dado por um caminhoneiro. Como advogada, disse ter tentado ajudar pessoas desesperadas e chamado advogados amigos ao local.1

Às 23h daquele dia apresentou-se para oitiva com delegado e escrivães, acompanhada por um advogado amigo e por representante da Comissão de Prerrogativas da OAB. Afirmou ter dito que estava no QG prestando serviço jurídico, mas o delegado respondeu que ela falasse ao juiz e que a partir dali estava presa. Recusou-se a assinar a nota de culpa, apresentada em xerox, por entender que as condutas não haviam sido individualizadas e que não cometera crime.1

Após oitiva e revista, na madrugada de 10 de janeiro, o grupo foi mantido sentado sob escolta e, por volta das 12h, levado em viaturas, com homens e mulheres separados, ao Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito. Ali, agentes da Polícia Civil do Distrito Federal, ao perceber a fome, serviram café, bolachas cream cracker e água mineral. Ela descreveu mulheres passando mal há mais de 24 horas sem comida ou água e uma jovem de 25 anos em crise nervosa socorrida pelas próprias presas.1

Do IML foi levada ao Presídio Colmeia entre 13 e 14h, onde passou por scanner corporal e revista com nudez e agachamento em local sem privacidade, com circulação de funcionários homens e mulheres. Identificou-se novamente como advogada, exigiu representante da OAB e sala de Estado Maior e disse ter sido motivo de chacota. Em seguida foi colocada em cela que descreveu como masmorra: sem energia, vaso rente ao chão, mofo, água empoçada da chuva, antiga solitária desativada há mais de 3 anos. Ali teve crise de pânico e gritou por contato com a OAB, sendo atendida, segundo ela, apenas pela policial penal que dividia a cela.1

Relatou ter ficado mais de 72 horas sem se alimentar e recusado a quentinha por odor de comida azeda e a banana por estar podre, tomando apenas suco. No terceiro dia, um funcionário do setor jurídico informou que a OAB sabia de sua presença e que a transferência para um quartel estava em andamento. No dia 12 de janeiro, por volta das 22h, foi transferida para o Quartel do 19º BPM, Núcleo de Custódia da Polícia Militar do Distrito Federal, apenas com a roupa do corpo, sem poder levar a mala.1

Ao chegar ao 19º BPM, em 13 de janeiro, após quatro dias sem comer, disse ter recebido tratamento humano e finalmente comido. Um policial mandou que levantasse a cabeça e soltasse as mãos, ao contrário da postura exigida no Colmeia. Depois de revista, tomou banho e permaneceu com a roupa do presídio até que o advogado levasse kit de higiene e roupas no dia seguinte. Foi a primeira a chegar ao batalhão; nos dias seguintes chegaram outros advogados vindos dos presídios.12

Contou que seu nome estava na primeira lista da Procuradoria Geral da República para sair, mas a saída foi negada. Segundo sua versão, o motivo invocado seria um vídeo sobre tomada do poder e uma foto em que aparece sentada sobre bandeira fazendo arminha, atribuída à Praça dos Três Poderes. Ela contesta a imagem por dois motivos: nunca foi à Praça e, na foto, não tem tatuagens no braço direito, enquanto seu braço direito é tatuado, além de seu ônibus ter chegado às 15h30, depois dos fatos. Atribuiu a manutenção da prisão a ter atuado na criação do Partido Aliança pelo Brasil e a ser ativista política, tese que é alegação dela, sem exame do ato.1

Com o desânimo e a tristeza, disse ter entrado em depressão, passado a tomar medicação para dormir, para pressão e para depressão, e perdido 15 kg. Em 5 de maio de 2023, durante pregação noturna promovida pelos PMs, recebeu a notícia de que no dia seguinte iria ao Centro Integrado de Monitoramento Eletrônico para colocar tornozeleira e voltar para casa. Refere 117 dias presa e quatro meses sem condições de pagar as contas.1

Em casa desde então, relatou horários limitados, proibição de sair da comarca e prisão domiciliar de 24 horas nos fins de semana, o que dificultava o exercício da advocacia criminal à qual dedicara a maior parte da carreira. Disse estar sendo ajudada por apoiadores diante da realidade financeira em que a vida virou de ponta-cabeça. Em janeiro de 2024 era descrita como tendo saído no mesmo dia que dois colegas, usando tornozeleira e cumprindo cautelares enquanto aguardava decisão do Supremo Tribunal Federal. Em julho de 2024 seu nome completo, Edith Christina Medeiros Freire, apareceu em lista de 16 advogados alvo de representação no Tribunal de Ética e Disciplina da OAB do Distrito Federal, sem sanção demonstrada.12

Situação documentada

Em casa com tornozeleira e cautelares desde maio de 2023, após 117 dias presa; em julho de 2024 citada entre advogados alvos de representação na OAB, sem sanção demonstrada.3

A trajetória no tempo

08/01/2023

Chegada de ônibus de João Pessoa a Brasília por volta das 15h30 e permanência no QG.1

09/01/2023

Remoção do QG em ônibus e chegada ao Ginásio da Polícia Federal entre 12 e 13h, sem alimentação.1

10/01/2023

Oitiva na madrugada, passagem pelo IML e entrada no Presídio Colmeia entre 13 e 14h.1

12/01/2023

Transferência do Colmeia para o Quartel do 19º BPM por volta das 22h.1

13/01/2023

Chegada ao 19º BPM, com alimentação e tratamento humano relatados.12

05/05/2023

Notícia de ida ao CIME para colocar tornozeleira e retornar para casa no dia seguinte.1

11/11/2023

Publicação do depoimento relatando 117 dias presa e dificuldades de trabalho sob cautelares.1

22/01/2024

Reportagem registra saída após 117 dias, uso de tornozeleira e cautelares aguardando decisão do Supremo.2

16/07/2024

Nome incluído entre 16 advogados alvos de representação no Tribunal de Ética da OAB do DF, sem sanção demonstrada.3

Dados da história

Formação
advogada1
Idade à época
55 anos · 11/11/20231
Residência informada
João Pessoa · PB222/01/2024
Processo e pena

Número do processo não localizado no acervo.

Pena não informada no acervo.

Medidas na trajetória
  • Tornozeleira eletrônica

    Colocação de tornozeleira eletrônica no CIME em maio de 2023 e retorno para casa.1

    Desde 05/2023 · Informada na data · 11/11/2023
  • Deslocamentos restritos

    Proibição de sair da comarca e prisão domiciliar de 24 horas nos fins de semana.1

    Informada na data · 11/11/2023
  • Prisão domiciliar

    Prisão domiciliar de 24 horas nos fins de semana, em casa desde maio de 2023.1

    Informada na data · 11/11/2023
Efeitos relatados
  • Trabalho

    Dificuldade para trabalhar por horários limitados, proibição de sair da comarca e domiciliar de fim de semana.1

    11/11/2023
  • Convivência

    Quatro meses longe das filhas, genros e netos durante a prisão.1

    11/11/2023
  • Saúde

    Relata depressão com uso de medicação para dormir, pressão e depressão, além de perda de 15 kg.1

    11/11/2023
  • Patrimônio

    Quatro meses sem condições de pagar as contas e ajuda de apoiadores após a prisão.1

    11/11/2023
Pedidos e respostas
  • Pedidos efetivamente apresentados não localizados no acervo.
Documentos e informações ainda não localizados
  • Número do processo, imputações formais e pena não localizados no acervo vinculado.
  • Entrada e saída efetivas e contagem dos 117 dias carecem de confirmação documental.
  • Situação atual após julho de 2024 não localizada; último registro é representação na OAB sem sanção demonstrada.
  • Sem entrevista direta além do depoimento enviado e editado; sem decisão judicial primária ou documento clínico examinado.

Fontes

  1. [Bureaucom] SEM JUSTIFICATIVA, ADVOGADA FICA 4 MESES PRESA

    Christina Medeiros; edição Ana Maria Cemin · Bureaucom · 11/11/2023

    Abrir fonte original ↗

    Documento preservado parcialmente.

    ↩ Voltar 1 ↩ Voltar 2 ↩ Voltar 3 ↩ Voltar 4 ↩ Voltar 5 ↩ Voltar 6 ↩ Voltar 7 ↩ Voltar 8 ↩ Voltar 9 ↩ Voltar 10 ↩ Voltar 11 ↩ Voltar 12 ↩ Voltar 13 ↩ Voltar 14 ↩ Voltar 15 ↩ Voltar 16 ↩ Voltar 17 ↩ Voltar 18 ↩ Voltar 19 ↩ Voltar 20 ↩ Voltar 21 ↩ Voltar 22 ↩ Voltar 23 ↩ Voltar 24 ↩ Voltar 25 ↩ Voltar 26 ↩ Voltar 27 ↩ Voltar 28 ↩ Voltar 29 ↩ Voltar 30

  2. [Bureaucom] 11 ADVOGADOS FORAM PRESOS EM 08/01 E SEGUEM TORNOZELADOS

    Ana Maria Cemin · Bureaucom · 22/01/2024

    Abrir fonte original ↗

    Documento preservado parcialmente.

    ↩ Voltar 1 ↩ Voltar 2 ↩ Voltar 3 ↩ Voltar 4 ↩ Voltar 5 ↩ Voltar 6

  3. ADVOGADOS DO 8 DE JANEIRO SOFREM RETALIAÇÕES DA OAB

    Ana Maria Cemin · Bureaucom · 16/07/2024

    Abrir fonte original ↗

    Documento preservado parcialmente.

    ↩ Voltar 1 ↩ Voltar 2

Corrigir, complementar ou solicitar retirada

Você pode solicitar alterações nas informações ou a retirada deste perfil.

← Voltar ao catálogo